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O PODER

dezembro 15, 2008

Eis o poder: seus palácios

hospedam reis e vassalos,

messalinas, pagens glabros,

eunucos, aias e lacaios,

e até artistas e ratos

 

 

 

 

Uma só  migalha basta

à sordícia que se alastra,

e pronto surge uma talha

onde o cenário é lavado

para o próximo espetáculo.

 

O poder é assim: devasta

corrompe, avilta, enxovalha,

do reles pároco ao papa,

e não há um só que escape

ao seu melífluo contágio.

 

Se alguém o nega ou o afasta,

compram-no logo, à socapa,

a peso de ouro ou de prata.

E se caso não o fazem,

mais simples ainda: matam-no.

 

Tem o poder muitas faces:

a que se crispa, indignada,

 a que te olha de soslaio,

a que purga e chega às lágrimas,

 a que se oculta, enigmática.

 

Mas são apenas disfarces,

formas várias que se esgarçam,

por entre véus e grinaldas,

porque assim vertem mais fácil

o vitríolo em tua taça.

 

E tu, rei de Tule, aos lábios

levas sempre, ávido, o cálice,

não por amor nem saudade

de quem se foi, entre vagas,

de um castelo à orla do mar,

 

mas só porque, embriagado,

são de engodo as tuas asas

e de cobiça os teus passos,

que vão além das sandálias

e se arrastam rumo ao nada.

 

O poder é aquele pássaro

Que te aguarda sob os galhos.

Tudo ele dá, perdulário.

De ti quer apenas a alma.

Por inteiro. Ou a retalho.

 

 

Ivan Junqueira, Rio de Janeiro, 1934

 

 

( Transcrito de Poemas reunidos, PP.242-243)

Publicado no Bar do Ossian em 14 de dezembro de 2008

http://renascimentolusitano.blogspot.com/

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