Archive for outubro \27\UTC 2008

h1

O menino, a viola e o sonho

outubro 27, 2008

Foto Nuno de Sousa

 

O menino apressa o passo
Olha a rua, os muros grafitados
Mas seus pensamentos voam
Por onde caminha não sente o chão,
As pedras, a brisa morna da tarde.
O peso que carrega nas costas é leve
São algodões de sonhos e esperança
Sua vida dura é o peso que lhe faz suar
Todas as agruras, enxugadas pela viola
Pensa na mãe que com carinho o espera
Após um dia de intenso trabalho
Para que seu filho possa sonhar
Ele, a sua esperança e vida
Ela, a que o abençoa todos os dias
Para que possa fazer dos seus sonhos
Realidade, promessa de vida melhor.
A melodia o acompanha
Enquanto sonha, a caminho de casa,
Um mundo melhor.

 

SamDesnuda

Anúncios
h1

Florbela Espanca

outubro 6, 2008

ALENTEJO by Raphael, o pensativo

 

Tudo é tranquilo e casto e sonhador…

Olhando esta paisagem que é uma tela

De Deus, eu penso então: Onde há pintor

Onde há artista de saber profundo

Que possa imaginar coisa mais bela

Mais delicada e linda neste Mundo?

 

Florbela Espanca

 

h1

A BOA E A MÁ ÁRVORE

outubro 2, 2008

RUI BARBOSA

 

 

Ruy Barbosa de Oliveira (Salvador, 5 /11/ 1849 — Petrópolis, 1 /03 /1923) . Jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador brasileiro.

 


A BOA E A MÁ ÁRVORE

 

 

Árvores há, de boa semente, boa terra e bons ares, que se criaram, para encantar os olhos com a formosura de sua grandeza, e proteger as criaturas com o benefício do seu abrigo. Um chão de bênção lhes recebeu as raízes. Medraram, enrijando contra as intempéries e os ventos. Filhas de um solo generoso, o tronco lhes cresceu, avultou e subiu, engrossando com os anos, que se lhe enrugam na corcha vigorosa. Da profunda cortiça, atrás da qual lhes circula a exuberância da seiva, bracejam os ramos, carregados de flores, frutos e sombra. As tormentas não as assustam: não lhes atravessam a basta frondescência os aguaceiros da invernia. Dir-se-ia que o tempo repoisa debaixo da sua copa, e a sua majestade se estende por sôbre a natureza que as cerca.

 

 

Outras, pelo contrário, como se trouxessem maldição desde a semente, vêm à luz mesquinhas e amofinadas, logo a assomar do primeiro rebento à flor da terra esmarrida. O caule, magro e torturado, se lhes esgalga, definhando. As vergônteas enfezadas se agüentam a custo, parecendo rever tristezas e cansaço. Desflorida, estéril, calva de folhagem, a ramaria agita contra a luz o espetro da sua nudez, que os musgos, os fetos, as parasitas, as lianas do mal envolvem nos restos de um sudário esgarçado e rôto. Os dias a vão mirrando, em vez de a reviçarem; do lenho esgrouviado e sêco se lhe extingue a vida; as últimas sementes da sua inanição lhe juncam por baixo o raizame descoberto, enquanto, pelos galhos, que estalam de aridez, raro se avista ainda um ou outro pomo a cair de carcomido e pêco.

 

 

*Discurso proferido na cidade de Alagoinhas, na Bahia, em 3 de dezembro de 1919. Transcrição do livro Antologia de Rui Barbosa ( Luís Viana Filho).

 

 

 

 

 

Texto publicado por SAM no Nova Aguia: O BLOGUE DA LUSOFONIA

http://novaaguia.blogspot