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Tecendo o Amanhã

novembro 5, 2009

“Só é meu
O país que trago dentro da alma”

“Só é meu
O mundo que trago dentro da alma.”

* Tradução de Manuel Bandeira ( Um poema de Chagall)

Tarcila do Amaral, Operários (1933); Simbolo da Primavera dos MuseusTarcila do Amaral, Operários (1933); Simbolo da Primavera dos Museus

 

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

 De um que apanhe esse grito que ele

 e o lance a outro; de um outro galo

 que apanhe o grito de um galo antes

 e o lance a outro; e de outros galos

 que com muitos outros galos se cruzem

 os fios de sol de seus gritos de galos,

 para que a manhã, desde uma teia tênue,

 se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos,

se entretendendo para todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão.

 

João Cabral de Melo Neto

(A Educação pela Pedra)

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Dança Púrpura

maio 19, 2009

 Foto: Dança Púrpura, Gerson Gonçalo

Você chega

Faz da minha boca

A entrada

Do meu corpo

Morada

.

Corpos

Ávidos

Sedentos

Procuram-se

 

Desejo

Paixão

Amor

Ternura

.Misturam-se

 

A natureza dança

Sob sons

De gemidos

E sussurros

Purpúreos

.
Flutuo

Entre espaços

 

Desnuda

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Sentidos

maio 19, 2009
Meu corpo são sentidos
Que se afloram quando te ve
Salivo prazer…

 

Gosto das tuas mãos quentes e libertinas no meu corpo, da tua língua que tenta aplacar o fogo do meu sexo, da tua boca ávida sorvendo o meu mel sugando-me até as entranhas; das tuas palavras indecentes que me deixam em brasa; do nosso despudor nas brincadeiras e fantasias , do incender do sexo e do odor deste incensar; desta entrega sem reservas e desta sede ao pote da vida celebrando o amor; desta dança puro instinto que me leva ao ápice do prazer.
*
Postado em Desnuda(http://samdesnuda.blogspot.com/)
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Maria Firmina dos Reis, a ” Maranhense”

maio 19, 2009

 Maria Firmina dos Reis

Uma das raríssimas gravuras de Maria Firma dos Reis encontrada na Biblioteca Pública de São Luis – MA

Primeira poetisa maranhense, (1825 – 1917). Era mulata e bastarda. Maria Firmina escreveu e publicou por muito tempo, crônicas, poesias, ficção e até charadas. Mulher inteligente e culta teve participação relevante no cenário cultural nacional, atuando também como folclorista e compositora, tendo sido, inclusive, responsável pelo hino da Abolição da Escravatura. Como romancista teve duas grandes publicações: Gupeva, de temática indianista, publicado em 1861 e Úrsula, publicado em 1859 onde assinara a obra sob o pseudônimo de “Uma maranhense”. Este último configura-se como o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira e primeiro escrito por uma mulher no Brasil, e, em 1871, Cantos à Beira Mar. Faleceu aos 92 anos de idade.

Ah! Não Posso
Se uma frase se pudesse
Do meu peito destacar;
Uma frase misteriosa
Como o gemido do mar,
Em noite erma, e saudosa,
De meigo, e doce luar.
Ah! se pudesse!… mas muda
Sou, por lei, que me impõe Deus!
Essa frase maga encerra,
Resume os afetos meus;
Exprime o gozo dos anjos,
Extremos puros dos céus.
Entretanto, ela é meu sonho,
Meu ideal inda é ela;
Menos a vida eu amara
Embora fosse ela bela.
Como rubro diamante,
Sob finíssima tela.
Se dizê-la é meu empenho,
Reprimi-la é meu dever:
Se se escapar dos meus lábios,
Oh! Deus, – fazei-me morrer!
Que eu pronunciando-a não posso
Mais sobre a terra viver.

Maria Firmina dos Reis
Cantos à Beira Mar, São Luís do Maranhão, 1871, pags. 45-46

Fontes: Nascimento Morais Filho, poeta, escritor e acadêmico
e Jornal de Poesia.
*Publicado por SAM no  O Bar Do Ossian (http://renascimentolusitano.blogspot.com/)
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MISTÉRIO

maio 19, 2009

Franck J (Al Tphotos.com)

Fotografia: Franck J (Al Tphotos.com)

FALA COMIGO, MISTÉRIO, que dás perfume aos cravos.Fala comigo, Mistério, que luzes em cada estrela.

Fala comigo, Mistério, que reges colméias e sistemas planetários.

Responde ao meu chamado, Mistério, que vivificas o átomo.

Atende-me Tu, que divinizas o amor, e és o Amor.

Conversa comigo, Mistério, que faíscas na mente do sábio, na devoção do místico, na ação do justo, na obra do artista, na pureza do santo, na renúncia do eremita, na inocência da criança, na divindade do amor materno, na veêmencia colorida da primavera, no deslumbramento do cosmonauta, na incógnita que desafia a ciência, na ternura de todos os ninhos.

Fala comigo.

Mas fala bem alto, pois ruídos impertinentes não me deixam ouvir Tua eternidade; a zoada do multissonoro envolvente me ensurdece e não consigo escutar Tua Unidade; as gargalhadas dos prazeres libertinos e os gemidos dos amargores todos do mundo fazem para mim inaudível Tua Canção de Paz.

Fala…E não demores.

Presa do tempo, minha alma vibra na ansiedade de retroceder às imateriais fibras de seu cerne, de onde vem Tua Fala que não chega.

Fala comigo, Mistério. E leva-me na aventura do Insondável, para além das fronteiras da percepção, para longe da pobreza criada por Teu Silêncio, da miséria que nasce de Tua Ausência.

Fala comigo, Mistério.

Mas, antes, ensina-me a ouvir-Te.

 

Hermógenes, Mergulho na paz.

*Publicado por SAM no blog Reflexões de Nós (http://reflexoes-de-nos.blogspot.com/)

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fevereiro 11, 2009

janeiro 2009

 

Aniversario em 28 de janeiro e, talvez por ser o primeiro mês do ano é que após completar mais um ano de vida sinto que o ano realmente começou para mim. Não por querer, mas pelas questões que se apresentam na minha caminhada vou me descobrindo e redescobrindo num incessante jogo , num determinado dia , em momentos, onde penso o que fiz, o que quero, o que posso, e principalmente,o quanto ainda posso desejar para mim entre realidade e sonhos.
Quando aproximei da casa dos quarenta, pareceu-me que alguns elos se desfizeram, libertando-me de coisas caducas e me deslumbrei com portais maravilhosos. Renovei-me por completo. Aos cinqüenta, se alguns deles desfizeram-se em ilusões ou entrei pela porta errada , mostrou-me o quanto ainda é belo sonhar.
No mínimo três pessoas de ideologias religiosas distintas e em épocas diferentes me disseram que viveria muito e muito bem. Será que terei sabedoria suficiente para viver bem por tanto tempo? Prefiro entregar meu futuro a Deus e fazer por vezes, o que o Diabo gosta. Mas tal uma criança, seguro nas mãos de Deus e não esqueço de procurá-lo como quem recorre ao pai com medo da escuridão.

E se é verdade que viverei tanto tempo, como dizem , e até então acreditava sem questionamentos o que já estava pré-definido como sendo todo ele voltado para o amor que imaginava ser somente o universal. Agora penso também no meu espaço-tempo, no amor de mulher. E penso se dos sessenta aos noventa isso será possível. Então, lendo o livro Memória de Minhas Putas Tristes, de Gabriel Garcia Márquez, descobri em mim uma rebeldia tardia e uma inquietação que nem em época apropriada tive. Descobri sob um mar tranqüilo, um redemoinho de mar – amar a vida- no mar da vida. E comecei a sonhar tanto quanto me foi possível medrar e desejar…

 

“(…) tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados. Quando meus gostos musicais entraram em crise me descobri atrasado e velho, e abri meu coração ao acaso.”
“(…) Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem perpétua que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. “
“(…) Naquela noite descobri o prazer inverossímil de contemplar, sem as angústias do desejo e os estorvos do pudor, o corpo de uma mulher adormecida.”

“(…) Por que você me conheceu tão velho? Respondi com a verdade: A idade não é a que a gente tem, mas a que a gente sente.”

“(…) comprovei que não apenas era possível, mas que eu mesmo, velho e sem ninguém, estava morrendo de amor. E também percebi que era válida a verdade contrária: não trocaria por nada deste mundo as delícias do meu desassossego. Havia perdido mais de quinze anos tratando de traduzir os cantos de Leopardi, e só naquela tarde os senti a fundo: Ai de mim, se for amor, como atormenta.”

“(…) e uma vez mais comprovei com horror que se envelhece mais e pior nos retratos que na realidade.”

“(…) A verdade é que eu não aguentava minha alma e começava a tomar consciência da velhice pelas minhas fraquezas diante do amor.”

“(…) mas o amor pôde mais que a razão.”

“(…) passava as noites num estado de deslumbramento que não me permitia ler nem escutar música, e em compensação passava o dia dando cabeçadas por causa da sonolência sonsa que não servia para dormir.”

“(…) Não senti dor nem medo, mas a emoção arrasadora de ter conseguido viver até ali.”

“(…) Desde então comecei a medir a vida não pelos anos, mas pelas décadas. A dos cinqüenta havia sido decisiva porque tomei consciência de que quase todo o mundo era mais moço que eu. A dos sessenta foi a mais intensa pela suspeita de que já não me sobrava tempo para me enganar. A dos setenta foi terrível por uma certa possibilidade de que fosse a última.Ainda assim, quando despertei vivo na primeira manhã de meus noventa anos na cama feliz de Delgadina, me atravessou a idéia complacente de que a vida não fosse algo que transcorre como um rio revolto na grelha e continua assando-se do outro lado por noventa anos a mais. “

 

GRACIAS A LA VIDA!
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Donna Mi Priego

dezembro 15, 2008
 Foto by Raquel Vazoler

Foto by Raquel Vazoler

 

Se amor é troca

ou entrega louca

discutem os sábios

entre os pequeno

e os grandes lábios

 

no primeiro caso

onde começa o acaso

e onde acaba o propósito

se tudo o que fazemos

é menos que amor

mas ainda não é ódio?

a tese segunda
evapora em pergunta

que entrega é tão louca

que toda espera é pouca?

qual dos cinco mil sentidos

está livre de mal-entendidos?

 

Paulo Leminski

 

Postado no Sam ( http://sentimentos-samblogspot.com)